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Ótica Carol

quinta-feira, 16 de março de 2017

O homem-bomba

O reino do incompreensível. Aquele que sacrifica outros e se sacrifica em nome de um ideal falso. A um tempo, é um facínora e um mártir. Resulta da pobreza filosófica. 

Admira-se o ato de entregar a vida na busca de um ideal. Este ideal, porém, é o mundo do impreciso. Não há dúvidas admissíveis quanto a Tiradentes; aos que morreram pela independência da Irlanda do Reino Unido, como  os sete signatários da República da Irlanda; aos que tombaram na luta contra o "apartheid". Entre outros semelhantes, ninguém ousa discutir a certeza desses ideais. 

Entretanto, algo diverso se deu com os pilotos kamicaze no Pacífico: até hoje, resta por justificar a posição dos japoneses na segunda guerra mundial. Um povo bravo, porém endeusador do imperador; o ideal deste era o de todos, jovens que renunciaram à vida. Ideal imposto e falso. São infindáveis os exemplos dos que mataram e morreram por não dominar a própria e justa razão. 

Muçulmanos que creem piamente morrer com bravura, por causa das bem-aventuranças do paraíso prometidas pela profeta na luta contra o infiel. Um espetáculo sombrio, ver homens, de uma crença honrada, tão tristemente enganados. Partem-se nossos corações, por nossas vítimas dos atos tresloucados e, inconscientemente, por todos os mortos, inclusive pelos agressores. Resta levar flores aos locais das tragédias. 

Locke disse que nossa razão se instala sobre uma folha branca, vazia, a "tabula rasa".  Assim  se encontra nossa mente  quando nascemos. Dá-se o preenchimento desde os primeiros anos de vida. Podemos ser formados para o amor, o trabalho criativo e a felicidade; como podemos ser conduzidos a equívocos fatais, a exemplo do extremismo muçulmano. Os princípios da religião são respeitáveis, porém deturpados por uma minoria. 

Os alucinógenos vivos e organizados têm conquistado boa parte dos jovens europeus, perdidos em selva umbrosa.  É que a educação voltada para o material e o mundo do glamour prevaleceu. Devemos procurar superar nossas dificuldades e demonstrar aos filhos que vivemos numa sociedade de valores e desvalores, mas que, na futura história, os primeiros deverão ocupar o vazio que incomoda a todos, e que a perfeição é somente um ideal que nos orienta.  

A vida precisa de romantismo, não daquele forjado sob a perspectiva de uma existência futura, depois da morte. A atual experiência pode e deve ser uma vida justa e feliz. Não há adiamentos. O humanismo é irrespondível. Forma edificadores, empresários, artistas, auxiliares do existir,  numa sociedade milagrosa, em que todas as funções que se completam, até mesmo as heroicas e ditas menores na estampa social, porém necessárias, devem ser respeitadas  e prestigiadas. 

Falhamos em boa parte na transmissão de conhecimentos de uma geração a outra. Mais, de contribuição à formação da subsequente, para melhor. O espaço em branco, de nossa responsabilidade, é preenchido pelo vírus dos extremismos; que a muitos cativam, novos seres que deixarão novos corações partidos, ao trocar a vida por uma ilusão, em atos tresloucados e supostamente admiráveis.

Amadeu Roberto Garrido de Paula, é Advogado, um renomado jurista brasileiro com uma visão bastante crítica sobre política, assunto internacionais, temas da atualidade em geral.

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