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quarta-feira, 17 de maio de 2017

A casa de "Papai Getúlio" é a história brasileira

Por Amadeu Roberto Garrido de Paula

Em artigo desrespeitoso a uma figura histórica brasileira, o Sr. José Emídio Pereira, publicado pelo Jornal Valor Econômico de 16 de maio (A 13), na condição de Professor de Relações do Trabalho da "Fundação Dom Cabral" (desconhecemos), e Diretor da "Dialogar Consultoria do Trabalho" (idem), intitulou-o "Abandonando a casa do Papai Getúlio".

Não se cresce no mercado das consultorias empresariais ou no universo intelectual do direito do trabalho lançando blocos de lama repugnante sobre nossas figuras históricas. Hoje, o povo sabe que um de nossos maiores males é a falta de líderes. Quem virá em 2018? Há tempo perdemos o contato direto do povo com os políticos, a realidade corajosa dos palanques, o olho no olho, em favor das diatribes dos marqueteiros. A televisão nos pôs todos no sofá, comportadinhos. Pasteurizadas as campanhas políticas, não temos mais lembranças de heroísmos das ruas e praças políticas.

Repugna-me toda figura ditatorial. Política é a arte da dialética revelada pela boa dialógica e respeito aos adversários. O massacre às liberdades públicas é imperdoável. Getúlio Vargas foi um desses ditadores. As torturas dos comunistas em seus calabouços estão registradas nas obras históricas; Luis Carlos Prestes teve de entregar sua amada, Olga Benário, à fúria animalesca dos nazistas intermediados por Getúlio.

Inobstante tudo isso, que o remete  às barrancas da eternidade (disse Borges que a penalidade imposta por Deus a essas aranhas do poder é mantê-los eternamente sentados num banco à espera por sua decisão por todos os tempos: lá estão Hitler, Mussolini, Lênin, Stálin, para citar apenas os mais notórios da direita e da esquerda). Getúlio deve estar por lá.

Todavia, ao observar um personagem histórico, não podemos deixar de recordar o destemor intelectual de Hannah Arendt. Sofrendo as dores dos látegos de seus irmãos judeus, sustentou que Heiichmann não devia ser visto domo um demônio, mas como alguém terrível e horrivelmente normal. Produto de seu tempo, diria Marx.  Líder de nossa industrialização, Getúlio comandou nosso crescimento, no processo de substituição de importações. Construiu nossa economia tecnológica de mercado: com essas leis que aí estão, inclusive com as leis trabalhistas. Sob estas, fomos à posição de sexta economia do mundo, como acaba de dizer o Procurador-Geral do Trabalho, Ronaldo Curado Fleury. A flexibilização das leis do trabalho não deu certo na Grécia, na Espanha, no México, na Itália. Por que aqui seria a salvação da lavoura?

Getúlio deu um tiro no peito e escreveu uma sensibilizadora carta testamento. Não permaneceu no ramerrão insuportável do "não sei, não vi, não é verdade". Sabia de tudo e preferiu entrar na história, ainda que o preço fosse a própria vida.  Hoje a preferência é pelas delações premiadas dos covardes, empresários e políticos. Os mesmos que querem a reforma trabalhista e o desmonte dos sindicatos. Porque as outras, prioritárias (administrativa, tributária, da justiça), trariam à baila a lava-jato. Porque o negociado diretamente com o hipossuficiente não é negociado, mas enfiado goela a baixo dos fracos. Se destruir os ricos não fortalece os pobres, tornar os pobres indigentes não melhora o estado dos ricos. E essa é a mensagem do articulista. Ainda que por não poder justificar seus atos, o homem cuja memória é deplorada  tem casa, sim. Não é a do "Papai Getúlio", mas a história brasileira.

Amadeu Roberto Garrido de Paula, é Advogado e sócio do Escritório Garrido de Paula Advogados.

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