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quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Hipocrisia não salva nações

Em tempos de imponderabilidade histórica, os povos anseiam por paz e vida social minimamente razoável. No trágico século vinte, vimos em tristes momentos  a terra encerrar seu ciclo e recomeçar o novo sem a beleza do natal e as esperanças do ano novo. A humanidade, máxime os jovens, parecia ter seu fim enunciados pelas grandes guerras. Bravamente, sobreviveu.

Poucos povos, nos dois últimos anos, sofreram tanto como o brasileiro. Nenhum de nós tinha a mínima ideia da abrangência da corrupção, dos imensos recursos do povo que se transformaram em pó. Líderes prometedores terminaram melancolicamente em presídios. Outros predadores, que todos conhecemos, tateiam por torpes  engrenagens políticas e jurídicas que, por ora, os afastam do implacável destino.

Teremos eleições, mas não se iludam. Vejamos os processos de mudanças históricas. São lentos, muitas vezes seculares. Esperamos recuperação mais célere para nosso Brasil. Os votos podem ser o primeiro arranque; como, também, o fim de ilusões, que esperamos não ocorrer.

Há certos requisitos indispensáveis para uma nação sobreviver. O primeiro é a compreensão, ainda que não profunda, de que a idoneidade, quer no plano nacional, quer na estreiteza da política representativa, é pressuposto "sine qua non". O entendimento entre as diversas correntes de pensamento nacional, o que não se compatibiliza com ombradas ideológicas, superficiais nos fundamentos e furibundas nos enfrentamentos. Uma indigesta visão de coxinhas e mortadelas, algo ínsito a nosso subdesenvolvimento cultural. A esqualidez dos grupos políticos-partidários, que existem em demasia, nenhum sem um cimento programático e de respeito "interna corporis"; em cada partido, ninguém se esquece de trazer a brasa para sua própria sardinha. Não devemos, porém, regozijarmo-nos com isso, tampouco estimular as cisões internas, do tipo PSDB de hoje. Grupos partidários fracos e conflitantes geram uma democracia débil. Figuramos entre as últimas colocadas das democracias mundiais.

Ainda, nenhuma nação  se desenvolve sob um estado pesado, misterioso, intransparente, hipócrita. Sabe-se que a previdência social é problemática financeiramente, mas todos os discursos sobre seu estado são meramente retóricos. Não vemos ninguém do "status" dizer a verdade indesmentível de que o Instituto despende mais para manter os servidores (atividade-meio) em relação ao pagamento dos benefícios (atividade-fim). Fica claro que reformas isoladas não levam a lugar algum. No caso apontado, entre outros aspectos, a previdência sob reforma não ocorrerá sem sérias mudanças administrativas. O eixo de todas as mudanças exige um amplo pacto social. 

No final do ano, momento de balanço, não do balanço das festas e dos fogos, é momento de não pensar pequeno. É hora de pensar em revolução, em seu sentido sadio, de mudanças (ou reformas, como queiram) de todas as instituições, num conjunto de medidas  não que  simplesmente se totalizem, mas se sintetizem congruentemente. Já se pensou que esquerda e direita são identificáveis, malgrado pobremente, enquanto o centro não tem uma necessária filosofia? É apêndice: centro-esquerda e centro-direita. Tudo isso dará em nada.

Somente essa visão estrutural  e estruturante será a semente que nos trará os primeiros frutos das eleições. Política como técnica, arte ou ciência (como queiram) de tocar a coisa pública, que não é monopólio de parlamento desacreditado. Sim, somos capazes dessa tarefa hercúlea. Simplesmente, porque somos racionais. O que falta é a racionalidade ocupar o espaço da emoção e da irracionalidade, e os tempos turvos do momento estão iluminados por velas e lamparinas. 

Amadeu Garrido de Paula

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